Vida social

Como vencer a timidez e ganhar autoconfiança aos poucos

Psicóloga fala sobre a origem da timidez, o peso do perfeccionismo e os pequenos passos que ajudam a se sentir mais segura

Publicado em 6 de novembro de 2026

Por Rafaella Fonseca

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Arte mostra mulher de cabelos lisos e loiros, branca, com as mãos diante do rosto, se escondendo

A timidez costuma ser vista como um defeito a ser corrigido ou como uma fase que a pessoa precisa superar, mas a realidade é bem mais complexa. Muitas das vezes o medo de ser julgada obriga as pessoas a evitar situações, engolir opiniões e duvidar da própria capacidade. Entender de onde vem esse sentimento é o primeiro passo para poder vencer a timidez, ganhar autoconfiança e construir uma relação mais leve com a própria presença no mundo.

Em entrevista à Sorria, a psicóloga Mayra Azevedo, apresentadora do podcast “Nem Tão Adulta”, explica de onde vem a timidez, quando o medo de se expor começa a atrapalhar a vida e dá orientações para quem quer ganhar segurança sem precisar mudar quem é.

Existe alguma diferença entre timidez, insegurança e baixa autoconfiança?

Mayra: Sim. A timidez aparece mais na relação com o outro e com a exposição: falar, se aproximar, ocupar espaço, ser percebido. A insegurança é mais ampla e pode aparecer nas escolhas, nos vínculos e na forma como a pessoa se percebe. Já a baixa autoconfiança envolve uma dificuldade maior de acreditar nos próprios recursos. 

Elas podem coexistir, mas não significam a mesma coisa e não devem ser tratadas automaticamente como um problema clínico, é preciso avaliar o quanto de sofrimento isso causa a pessoa. 

De onde vem a timidez?

Mayra: Ela pode surgir de uma combinação entre características individuais e as dinâmicas vividas ao longo da história da pessoa. Experiências de crítica, vergonha, comparação, cobrança ou pouco espaço para se expressar podem tornar o olhar do outro mais ameaçador. Mas também existem pessoas naturalmente mais reservadas. O importante é compreender o significado que a exposição ganhou para aquele sujeito.

O que acontece na cabeça de quem é tímido?

Mayra: Muitas vezes, a pessoa deixa de estar na conversa e passa a se observar de fora: como estou falando, o que estão pensando de mim, será que pareci ridícula? O olhar do outro ganha um peso excessivo. Na psicanálise, nos interessa entender por que ser visto se tornou tão arriscado. 

Esses pensamentos podem mudar à medida que a pessoa questiona essas fantasias e consegue experimentar relações em que não precisa estar constantemente se defendendo do julgamento.

A autoconfiança é uma habilidade que se desenvolve ou um traço com o qual a pessoa já nasce?

Mayra: A autoconfiança é totalmente construída. Ela se desenvolve quando a pessoa consegue experimentar, errar, sustentar escolhas e perceber que não precisa ser perfeita para continuar tendo valor. Muitas vezes, não nos tornamos confiantes antes de agir, construímos confiança justamente depois de atravessar experiências que antes pareciam impossíveis.

Em que momento a timidez deixa de ser só um jeito de ser e começa a atrapalhar o trabalho, os relacionamentos e a vida social?

Mayra: O limite aparece quando a pessoa deixa de escolher e passa a ser escolhida pelo medo. Ela gostaria de falar, conhecer pessoas, participar de uma reunião ou se posicionar, mas começa a organizar a vida para evitar exposição. 

Quando há sofrimento persistente, muita antecipação, evitação ou prejuízo importante, vale buscar acompanhamento psicológico. A terapia não tem como intuito transformar uma pessoa reservada em extrovertida, mas para entender por que algumas situações ganharam tamanho poder sobre ela.

O que dizer para quem trava na hora de falar em público?

Mayra: Primeiro, é importante abandonar a expectativa de não sentir ansiedade. Frequentemente, o medo aumenta porque a pessoa passa a lutar contra qualquer sinal de nervosismo. Respirar mais lentamente, ensaiar previamente e se expor de forma gradual ajuda. Mas também vale se perguntar: o que exatamente parece estar em risco quando todos olham para mim? Muitas vezes, o medo de falar é também medo de falhar diante do olhar do outro.

De que forma a autocrítica exagerada e o perfeccionismo atrapalham a autoconfiança?

Mayra: Eles estabelecem um ideal praticamente impossível de alcançar. A pessoa não se permite ser apenas suficientemente boa, ela precisa falar certo, agir certo, não hesitar e não decepcionar. Quanto mais rígido esse ideal, maior o medo de se expor. O perfeccionismo muitas vezes não protege do fracasso: ele impede a experiência necessária para perceber que errar não produz a catástrofe imaginada.

Como desenvolver confiança sem sentir que precisa virar uma pessoa extrovertida?

Mayra: Confiança não é falar muito, gostar de festas ou ser a pessoa mais expansiva do ambiente. É conseguir ocupar o próprio lugar sem sentir que precisa pedir desculpas por existir nele. Uma pessoa reservada pode ser extremamente segura, desde que seu silêncio seja uma escolha e não uma imposição do medo.

Ser introspectivo ou reservado não é sinônimo de insegurança. Algumas pessoas simplesmente preferem menos estímulo, poucos vínculos e mais tempo consigo mesmas. A questão clínica aparece quando não se trata mais de preferência: a pessoa quer participar, falar ou se aproximar, mas sente que não consegue. O problema não é gostar de ficar sozinho, é quando o medo começa a decidir pela pessoa.

Que dicas você daria para quem se sente prejudicado pela timidez?

Mayra: Eu começaria trocando a pergunta “como faço para parar de ter medo?” por “o que esse medo está tentando evitar?”. Depois, pequenos movimentos ajudam: se posicionar um pouco mais, tolerar não ter a resposta perfeita, iniciar conversas, aceitar algum constrangimento e perceber que ele passa.

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