Jornalista e cofundadora da Contente.vc dá dicas de como exercitar a coragem no dia a dia
Em Para todas as mulheres que não têm coragem, seu primeiro livro, a jornalista e cofundadora da Contente.vc Daniela Arrais mergulha no fenômeno da impostora cruzando experiências pessoais, entrevistas com mulheres referência em suas áreas e reflexões sobre o lugar que ocupamos na sociedade. Ao longo da obra, a autora propõe um convite para que outras mulheres que enfrentam inseguranças assumam o protagonismo de suas trajetórias.
Em entrevista à Sorria, Daniela fala sobre o processo de escrever o livro, compartilha as mudanças que a ajudaram a enfrentar a autossabotagem, explica por que acredita que a coragem pode ser exercitada no dia a dia e indica leituras que inspiram a colocar os próprios desejos em primeiro plano.
Daniela: Quando a vontade de falar ficou maior do que o medo de desagradar, eu entendi que precisava seguir com a escrita deste livro. Eu escrevo desde que me entendo por gente, fiz da palavra o meu ofício, a palavra me sustenta em múltiplos sentidos. Ainda assim, eu me via às voltas com um questionamento incessante, deixando as “vozes da minha cabeça” falarem muito alto, me fazendo duvidar de mim. A certa altura do processo, me dei conta de que a minha insegurança não era algo só meu. Todas as mulheres que eu conheço sofrem dessa incapacidade de se autorizarem a fazer o que mais desejam. Aí eu entendi que tinha um livro. Porque a minha história não era única, ela era reflexo de uma opressão que a gente sofre desde sempre.
Daniela: A gente é muito boa em equilibrar mil pratinhos, dar conta de mais do que deveríamos, cuidar de tudo e de todos. Mas, muitas vezes, a gente se esquece pelo caminho. A gente deixa nossos desejos para um momento “mais oportuno”. Trata descanso como luxo, quando ele é a base pra gente ter mais saúde, tanto física quanto mental.
Então, coragem pra mim é a gente descansar e se priorizar em um mundo que não só não vai parar de exigir da gente quanto parece que nos trata cada vez pior. A grande coragem é a gente aprender a se ouvir mais, a se priorizar, a descansar, a colocar no dia a dia a realização dos nossos desejos, um passinho por vez. O que você pode fazer por 10 minutos hoje para caminhar em direção ao que você sonha?
Daniela: A necessidade de pagar as contas, de trabalhar, de ter que entender de inteligência artificial para não ser substituída por ela (e torcer para que isso se concretize). Então, seguir com nossos projetos e desejos num mundo que parece colapsar em diferentes níveis requer não só uma dose extra de persistência como de otimismo também.
Da minha parte, preciso colocar a escrita como a minha primeira tarefa, a mais importante. Porque sabe como passei a maior parte de 2025? Escrevendo depois de resolver tudo o que eu tinha pra fazer. E eu sei o quanto isso é uma armadilha. A gente se sabota, a gente se adia, eu escrevi um livro inteiro sobre isso! Mas a espiral da vida é veloz. E se a gente não fica incomodada de ver que tá caindo na mesma história, a gente não muda.
Daniela: A coragem não vai surgir como um lampejo. Mas pode ser treinada, um pouco a cada dia. Então, a sugestão que dou para você é a que quero que funcione para mim: bora priorizar nossos desejos, nem que seja por 15 minutos por dia. Mas bora fazer isso com constância. O quanto a gente avançou naquilo que, agora, parece impossível? Sonho também precisa de rotina, de repetição. Só assim a gente vai cavando espaço para o que mais nos importa.
Daniela: Inevitável citar a Brené Brown com A coragem de ser imperfeito. Esse livro foi uma bela porta de entrada para o estudo da vulnerabilidade e da coragem. É daqueles que mudam uma chavinha, sabe? Gosto demais de O caminho do artista, da Julia Cameron, pelo que ele traz de exercício constante, como o das “páginas matinais”, que consiste em escrever três páginas por dia, de próprio punho, em um caderno, deixando vir tudo o que passa pela nossa cabeça. Também sou apaixonada por A louca da casa, de Rosa Montero. Rosa nos conduz por uma investigação sobre o ato de escrever, misturando suas histórias e percepções com fragmentos da vida de escritores do cânone e as ideias deles sobre o ofício.