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Vida social

‘Vergonha de falar sobre dinheiro vem da profunda desigualdade social’

Psicanalista e professor da USP, Christian Dunker analisa nossa relação com o dinheiro hoje

Publicado em 2 de novembro de 2025

Por Christiano Amaral

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Retrato de Christian Dunker, homem de barba e cabelo grisalhos, com expressão séria, diante de estante de livros

Falar sobre dinheiro ainda é um tabu para muitas pessoas. Em uma sociedade que valoriza demais as aparências (e as posses), dificuldades financeiras costumam vir acompanhadas de culpa, vergonha e comparação constante. Nesta entrevista à Sorria, o psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da USP Christian Dunker reflete sobre a relação entre finanças e saúde mental, explica por que o endividamento afeta tanto nosso bem-estar e aponta caminhos para construir uma relação mais saudável com o dinheiro.

Como as dificuldades financeiras impactam a saúde mental?

Dunker: Preocupações com dinheiro ou a perda do emprego afetam a saúde mental porque o trabalho, além de ser uma fonte essencial de sustento, é fundamental para o reconhecimento social. A perda dessa segurança e a preocupação com a parte material drenam energias psíquicas de áreas cruciais para nossa recomposição: o lazer, as relações de respeito e autoridade e a abertura para fazer planos e sonhar acabam comprometidos.

Como falar com mais naturalidade sobre questões financeiras?

Dunker: Parte da vergonha de falar sobre dinheiro vem da profunda desigualdade em nossa sociedade. Muitas pessoas associam dívidas a um descontrole moral, e falar sobre endividamento seria a admissão de uma falha ou incapacidade.

Uma das principais dificuldades para quem enfrenta problemas financeiros é lidar com os fatos: muitos evitam olhar o extrato bancário, negociar dívidas ou aceitar ajuda. A solução passa pela escuta de si, para entender como chegou a essa situação. A psicanálise pode ajudar.

Como driblar a comparação nas redes sociais, em que aparência e posses contam tanto?

Dunker: A comparação leva ao isolamento. A ideia de que alguém vale tanto quanto acumula é típica da estrutura neoliberal de produção e consumo, em que cada um olha para si como uma empresa que precisa dar lucro – e, se não dá, não é porque seu universo financeiro está indo mal, e sim você. Nosso valor ultrapassa nosso salário.

É fundamental sair de si mesmo, buscar outros pontos de vista e aceitar ajuda. Nos privamos desse apoio por nos colocarmos em um enfrentamento moral que muitas vezes está ligado à ideia de que quem tem mais é melhor. É preciso mudar a forma como nós, como sociedade, medimos nosso valor.

Conteúdo originalmente publicado no livro “Como Vencer a Ansiedade Financeira”, da Coleção Sorria

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