Anna Gouveia, criadora da página 'Tem Gente Que Não Bebe', acredita que boa parte do consumo de álcool é movido por vontade de pertencer
Criadora da página Tem Gente Que Não Bebe, Anna Gouveia transformou a própria experiência com o álcool em um espaço para quem não se reconhece nem no rótulo de alcoolismo, nem no silêncio sobre o assunto. Desde 2024, o projeto reúne relatos de pessoas que, como ela, perceberam que algo em sua relação com a bebida não ia bem.
Em entrevista à Sorria, Anna fala sobre o que a levou a parar de beber e criar a página, compartilha as mudanças que sentiu na própria vida e na forma de se relacionar com os outros, explica por que acredita que boa parte do consumo social é movido por medo de destoar do grupo e lista as frases mais inconvenientes que costuma ouvir por não beber.
Anna: Não era um detalhe da minha vida, era quase um cargo: eu era a que ficava até o fim, a que insistia para ninguém ir embora cedo, a que dizia não confiar em quem não bebia. Eu funcionava bem, trabalhava, tinha amigos, tinha vida. Só que eu não conseguia beber pouco. Eu começava a beber quando chegava e parava quando ia embora, e às vezes ainda levava uma cerveja para o caminho de casa.
O que me fez parar não foi um episódio, eu acho que foi a repetição dessa ressaca. Não tanto a ressaca física (também), era um estado depressivo que chegava no sábado, ia até quarta, e na sexta recomeçava tudo. Um dia eu decidi ficar um ano sem beber e escolhi começar no meu aniversário, justamente para passar por todos os feriados. Quando o ano terminou, eu emendei outro.
A página nasceu porque, quando eu fui procurar conteúdo sobre o que estava acontecendo comigo, não achei quase nada em português. Ou era sobre alcoolismo, com vocabulário de doença e de fundo do poço, ou simplesmente não existia. E eu não me encaixava em nenhum dos dois lados. Criei o Tem Gente Que Não Bebe em março de 2024 para essa pessoa do meio, que não tem diagnóstico, mas sente que alguma coisa ali não tá boa.
Anna: A resposta seria dizer que eu passei a dormir melhor e acordar com mais disposição, e isso é verdade, mas não é o principal. O que mais mudou pra mim foi o tempo. Eu recuperei uma parte enorme da semana e da minha energia mesmo, que eu gastava me recuperando ou me culpando.
Sem beber, eu descobri que sou muito mais introspectiva do que sempre achei que fosse. Eu usava a bebida como apoio social. Sem ela, eu precisei aprender a chegar num lugar cheio de gente e simplesmente ficar ali, sendo eu e não uma versão que eu achava que precisava ser pra ser aceita.
Anna: Não é uma história, são muitas, e o mais impressionante é o quanto elas se parecem. Muda a idade, cidade, profissão, mas o núcleo é quase sempre o mesmo: a pessoa achava que era a única que sentia isso.
O que passa pela minha cabeça quando eu abro é: essa pessoa não tinha onde falar isso. Não existem muitos lugares em que dizer “acho que eu estou bebendo demais” não vire um rótulo pesado na mesma hora.
Anna: Acho que a pergunta fica mais fácil de responder quando a gente inverte: quantas vezes você bebeu num lugar onde ninguém mais estava bebendo?
Isso não significa que ninguém beba por que gosta. Eu também gostava. O que eu questiono é a conta que a gente faz depois, quando explica todo o consumo pelo gosto.
Se fosse só gosto, a quantidade não subiria tanto conforme o ambiente. A gente não toma três cafés seguidos porque o segundo estava gostoso.
Sobre o medo de destoar do grupo, ele é bem maior do que as pessoas admitem, e dá para perceber se a gente pensa que começar a beber não exige explicação nenhuma e parar exige um interrogatório.
Anna: “Nossa, mas você era tão divertida.” Sempre no passado, sempre com um tom de pêsames.
“Parar de beber não é meio radical?” Uma pessoa passar mal, esquecer a noite inteira e dirigir depois é normal, mas beber água com gás é “radical”.
“Aconteceu alguma coisa?” Parte do princípio de que ninguém para por escolha, só por tragédia. Aí quem não bebe fica com duas opções ruins: entregar uma intimidade que não queria ou inventar um motivo aceitável, tipo remédio, pra conversa acabar logo.
Anna: Primeiro, uma boa notícia: ninguém está te julgando. Sem que você queira, às vezes você não estar bebendo, lembra a pessoa daquele assunto, da relação dela com a bebida que ela muitas vezes não quer olhar. Então incomoda.
E algo que ajuda de verdade: ter uma opção boa na geladeira e não montar todo programa em volta de bebida e de bar. Não precisa virar cerimônia, ninguém quer que o encontro fique abstêmio. Mas se a única coisa que a gente sabe fazer junto depende de uma garrafa no meio, a coisa fica mais chata.