Vida social

Ela parou de beber e agora inspira quem também quer parar (ou reduzir) o álcool

Anna Gouveia, criadora da página 'Tem Gente Que Não Bebe', acredita que boa parte do consumo de álcool é movido por vontade de pertencer

Publicado em 4 de setembro de 2026

Por Rafaella Fonseca

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Foto mostra Anna Gouveia, mulher de cabelos lisos, pretos e de franja e óculos, brindando com copo que parece ser de coca cola

Criadora da página Tem Gente Que Não Bebe, Anna Gouveia transformou a própria experiência com o álcool em um espaço para quem não se reconhece nem no rótulo de alcoolismo, nem no silêncio sobre o assunto. Desde 2024, o projeto reúne relatos de pessoas que, como ela, perceberam que algo em sua relação com a bebida não ia bem.

Em entrevista à Sorria, Anna fala sobre o que a levou a parar de beber e criar a página, compartilha as mudanças que sentiu na própria vida e na forma de se relacionar com os outros, explica por que acredita que boa parte do consumo social é movido por medo de destoar do grupo e lista as frases mais inconvenientes que costuma ouvir por não beber.

Como era sua relação com o álcool antes e por que decidiu parar? 

Anna: Não era um detalhe da minha vida, era quase um cargo: eu era a que ficava até o fim, a que insistia para ninguém ir embora cedo, a que dizia não confiar em quem não bebia. Eu funcionava bem, trabalhava, tinha amigos, tinha vida. Só que eu não conseguia beber pouco. Eu começava a beber quando chegava e parava quando ia embora, e às vezes ainda levava uma cerveja para o caminho de casa.

O que me fez parar não foi um episódio, eu acho que foi a repetição dessa ressaca. Não tanto a ressaca física (também), era um estado depressivo que chegava no sábado, ia até quarta, e na sexta recomeçava tudo. Um dia eu decidi ficar um ano sem beber e escolhi começar no meu aniversário, justamente para passar por todos os feriados. Quando o ano terminou, eu emendei outro.

A página nasceu porque, quando eu fui procurar conteúdo sobre o que estava acontecendo comigo, não achei quase nada em português. Ou era sobre alcoolismo, com vocabulário de doença e de fundo do poço, ou simplesmente não existia. E eu não me encaixava em nenhum dos dois lados. Criei o Tem Gente Que Não Bebe em março de 2024 para essa pessoa do meio, que não tem diagnóstico, mas sente que alguma coisa ali não tá boa.

O que mudou na sua vida depois de parar de consumir bebidas alcoólicas?

Anna: A resposta seria dizer que eu passei a dormir melhor e acordar com mais disposição, e isso é verdade, mas não é o principal. O que mais mudou pra mim foi o tempo. Eu recuperei uma parte enorme da semana e da minha energia mesmo, que eu gastava me recuperando ou me culpando.

Sem beber, eu descobri que sou muito mais introspectiva do que sempre achei que fosse. Eu usava a bebida como apoio social. Sem ela, eu precisei aprender a chegar num lugar cheio de gente e simplesmente ficar ali, sendo eu e não uma versão que eu achava que precisava ser pra ser aceita.

“Tem gente que não bebe” hoje é praticamente um movimento. Quando você abre as mensagens e vê uma mensagem de alguém desabafando ou agradecendo, o que sente? 

Anna: Não é uma história, são muitas, e o mais impressionante é o quanto elas se parecem. Muda a idade, cidade, profissão, mas o núcleo é quase sempre o mesmo: a pessoa achava que era a única que sentia isso.

O que passa pela minha cabeça quando eu abro é: essa pessoa não tinha onde falar isso. Não existem muitos lugares em que dizer “acho que eu estou bebendo demais” não vire um rótulo pesado na mesma hora. 

Na sua visão, quanto da bebida que rola por aí é vontade genuína e quanto é só hábito ou medo de destoar do grupo?

Anna: Acho que a pergunta fica mais fácil de responder quando a gente inverte: quantas vezes você bebeu num lugar onde ninguém mais estava bebendo? 

Isso não significa que ninguém beba por que gosta. Eu também gostava. O que eu questiono é a conta que a gente faz depois, quando explica todo o consumo pelo gosto. 

Se fosse só gosto, a quantidade não subiria tanto conforme o ambiente. A gente não toma três cafés seguidos porque o segundo estava gostoso.

Sobre o medo de destoar do grupo, ele é bem maior do que as pessoas admitem, e dá para perceber se a gente pensa que começar a beber não exige explicação nenhuma e parar exige um interrogatório. 

Quais são as frases mais inconvenientes que as pessoas que não bebem escutam? 

Anna: “Nossa, mas você era tão divertida.” Sempre no passado, sempre com um tom de pêsames.

“Parar de beber não é meio radical?” Uma pessoa passar mal, esquecer a noite inteira e dirigir depois é normal, mas beber água com gás é “radical”. 

“Aconteceu alguma coisa?”  Parte do princípio de que ninguém para por escolha, só por tragédia. Aí quem não bebe fica com duas opções ruins: entregar uma intimidade que não queria ou inventar um motivo aceitável, tipo remédio, pra conversa acabar logo.

E por outro lado: para pessoas que não entendem essa escolha, o que você diria?

Anna: Primeiro, uma boa notícia: ninguém está te julgando. Sem que você queira, às vezes você não estar bebendo, lembra a pessoa daquele assunto, da relação dela com a bebida que ela muitas vezes não quer olhar. Então incomoda.

E algo que ajuda de verdade: ter uma opção boa na geladeira e não montar todo programa em volta de bebida e de bar. Não precisa virar cerimônia, ninguém quer que o encontro fique abstêmio. Mas se a única coisa que a gente sabe fazer junto depende de uma garrafa no meio, a coisa fica mais chata.

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