Psicóloga explica como a endometriose afeta a saúde mental, a relação com ansiedade e depressão e como pedir apoio
A dor da endometriose costuma ser a parte mais falada da doença, mas ela raramente vem sozinha. Entre consultas, exames e diagnósticos que demoram, muitas mulheres também precisam lidar com ansiedade, tristeza, isolamento e a sensação de não serem levadas a sério, inclusive por pessoas próximas. Por isso, o cuidado com a saúde mental é visto como um dos pilares fundamentais no tratamento da endometriose.
Em entrevista à Sorria, a psicóloga Izaianni Risco, especialista em atender mulheres com endometriose, explica como a doença atinge o emocional e a vida íntima das pacientes e dá orientações para quem precisa do apoio de profissionais, familiares e parceiros.
A endometriose afeta a saúde mental das pacientes de várias maneiras, tanto no contexto biológico quanto psíquico e social. Do ponto de vista biológico, ela gera uma inflamação sistêmica que pode fazer com a paciente tenha névoa mental, alterações bruscas de humor e dificuldades com a memória e concentração.
Ela também afeta a vivência psicossocial porque as pacientes sentem muita dor, uma dor crônica, o que gera muitos desconfortos, a autoestima, autoimagem, as relações sociais, o que leva a isolamento. Outro fator são as muitas idas aos médicos, questões financeiras e rotinas, que contribuem para afetar a saúde mental dessas pessoas.
Izaianni relata que há pacientes que chegam a ter comportamentos suicidas por não se reconhecerem mais no próprio corpo, por se sentirem menos mulheres, com a sexualidade, a vitalidade e a autoestima abaladas.
Sim, e ela é bem grande. De acordo com a psicóloga, estudos recentes indicam que mulheres com endometriose têm cerca de três vezes mais chance de desenvolver depressão e mais de duas vezes mais chance de ter ansiedade do que as demais mulheres. Algumas pesquisas apontam que mais da metade das pacientes convive com ambos os quadros.
Ela cita ainda um estudo divulgado em abril que encontrou uma correlação genética entre endometriose e depressão. A especialista faz questão de explicar que isso não significa, necessariamente, que a endometriose seja a causa da depressão.
Entender que o corpo e a mente estão conectados é o primeiro passo para se olhar com mais carinho e se cuidar de maneira integral. Por isso o apoio médico e psicológico são igualmente importantes para encontrar caminhos de alívio e melhorar a qualidade de vida após o diagnóstico. É uma forma de reencontrar sua força diária.
Esse é um dos maiores sofrimentos de quem tem a doença. “A mulher não sofre só com a dor, ela sofre também com as relações”, resume Izaianni.
Com os profissionais de saúde, ela defende que a paciente assuma um papel ativo. Isso inclui levar o histórico e uma lista de sintomas para a consulta, questionar por que um tratamento foi indicado e não outro e entender qual é a expectativa para o seu caso. A especialista reconhece que nem todos os profissionais estão atualizados sobre a doença, e recomenda buscar indicações de outras pacientes e de colegas de profissão. Em casos de mau atendimento ou descrença, ela orienta fazer a denúncia no Conselho Regional de Medicina (CRM).
Segundo a psicóloga, é importante ter cuidado com “gurus” da internet que passam dicas infalíveis para o tratamento da endometriose. A melhor forma de se manter informada é buscar fontes confiáveis e que tenham respaldo científico.
Com familiares e parceiros, o caminho também passa pela informação. A mulher pode explicar a doença por completo e dizer com clareza o que precisa. Frases como “eu preciso que você faça isso” e “eu não preciso que você faça aquilo” ajudam a evitar ruídos de comunicação. Izaianni ressalta que a paciente não tem controle sobre como o outro vai responder, mas pode fazer a sua parte.
A dor é o primeiro obstáculo. Muitas pacientes têm medo de sentir dor na relação sexual, seja porque já sentiram, seja porque estão com dores frequentes. A libido também pode diminuir, e não apenas por causa da dor. Quem está deprimida ou com a autoimagem abalada tende a se sentir menos capaz e menos desejável.
A situação pode piorar quando o parceiro ou a parceira não entende o que está acontecendo, cobra demais ou faz comentários que ferem a autoestima. Muitas mulheres não falam por vergonha e medo de julgamento, e muitos parceiros querem se aproximar, mas não sabem como.
Por isso, o ideal é conversar, e o parceiro também pode dizer o que sente e o que precisa. “Relação sexual não é só penetração, principalmente na endometriose”, lembra a especialista. Existem várias formas de sentir prazer, desde que tudo esteja combinado e ambos estejam confortáveis. Ela reforça que fortalecer a relação para além do sexo, com carinho e diálogo, ajuda a construir uma intimidade satisfatória, mesmo que de um jeito diferente do tradicional.
Existem diferentes recursos que podem aliviar o desconforto, a escolha varia de paciente para paciente. Entre eles estão a bolsa de água quente, o escalda-pés, alongamentos, massagens e exercícios de respiração. Ela também menciona aparelhos de eletroestimulação e de calor, alimentação e suplementação voltadas ao alívio das cólicas, além de florais e medicamentos homeopáticos. Qualquer uso de suplementos ou medicamentos deve ser conversado com a equipe de saúde.
A acupuntura é a estratégia que ela mais recomenda. Segundo a psicóloga, ela vê a melhora nas próprias pacientes que aderiram as sessões.
O primeiro passo é explicar o que é a endometriose, o que ela causa e como se comporta no organismo. Depois, é preciso mostrar quem é a pessoa por trás do diagnóstico, com frases como “neste momento eu estou num período específico, eu preciso disso, eu funciono assim”. Grupos na internet, eventos para pacientes e familiares, cartilhas e guias sobre a doença também podem ajudar a família a entender melhor como lidar com a situação.
A psicóloga defende que a mulher com endometriose precisa de duas redes de apoio. A primeira é formada por familiares e pessoas próximas, que podem ajudar em questões práticas, como tarefas domésticas, alimentação, acompanhamento em consultas e exames, ou simplesmente escutar. A segunda é uma rede de outras mulheres com endometriose, que escutam sem julgamento porque vivem situações parecidas, o que traz acolhimento e troca.
Há ainda um ponto que a psicóloga reforça: mesmo depois de se colocar com clareza, a mulher pode não receber o apoio esperado, e isso não é culpa dela. “Como o outro recebe é sobre o outro, não é sobre a gente”, afirma. Nesse caso, vale buscar ajuda em outra pessoa, como uma irmã, uma amiga ou um parente.
Se você se identificou com algum desses sinais descritos ao longo deste texto, procure uma avaliação médica profissional. Diagnosticar a endometriose é o primeiro passo para entender melhor o próprio corpo e encontrar o tratamento mais adequado para a sua rotina.
Esta é a segunda de uma série de matérias em que vamos conversar com especialistas sobre a endometriose. Nas próximas semanas, traremos aqui no site o olhar de uma nutricionista sobre como cada uma dessas áreas pode ajudar no cuidado de quem convive com o diagnóstico.