Saúde

Endometriose tem cura? Ginecologista responde essa e outras dúvidas comuns

Médica explica a doença que afeta milhões de mulheres e tira dúvidas sobre diagnóstico, tratamento e qualidade de vida

Publicado em 25 de setembro de 2026

Por Rafaella Fonseca

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Arte mostra mulher jovem usando roupas de ginástica brancas e faixa rosa no cabelo sentada sobre uma cama desfeita, abraçando as próprias pernas

A endometriose ainda é cercada por dúvidas, mesmo sendo uma condição extremamente comum entre mulheres em idade reprodutiva. Segundo o Ministério da Saúde, a doença atinge entre 5% e 15% das mulheres que menstruam. Já a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 190 milhões de mulheres no mundo, o equivalente a 10% da população feminina, convivam com o diagnóstico. Ainda assim, é comum que o caminho até identificar a doença seja longo, marcado por dores normalizadas e diagnósticos que demoram a chegar. 

Em entrevista à Sorria, a ginecologista Juliana Sperandio, especialista em cirurgias minimamente invasivas, fala sobre essa doença e suas complexidades, compartilhando orientações para quem já tem o diagnóstico ou desconfia que pode ter endometriose. 

O que é endometriose?

É uma doença inflamatória crônica na qual um tecido parecido com o endométrio (camada que reveste o interior do útero) cresce fora da cavidade uterina. Esse tecido costuma se instalar nos ovários, trompas, intestino, bexiga e, mais raramente, em regiões fora da pelve.

“Esse tecido ectópico responde aos estímulos hormonais do ciclo menstrual, gerando inflamação crônica, fibrose (tecido cicatricial) e formação de aderência”, descreve Juliana Sperandio. 

Existem diferentes tipos de endometriose?

Sim. De acordo com Juliana, a doença se classifica em três formas principais. A endometriose peritoneal superficial se manifesta como implantes superficiais no peritônio (camada que reveste os órgãos internos). Já o endometrioma ovariano forma cistos preenchidos de sangue nos ovários, popularmente conhecidos como “cisto de chocolate”. 

A forma mais complexa é a endometriose infiltrativa profunda, conhecida pela sigla DIE, que forma nódulos e fibrose abaixo do peritônio e pode acometer o intestino, bexiga, ureteres e o septo retovaginal. 

Quais são os sintomas mais comuns e como diferenciar de outras condições? 

Os sinais mais frequentes, segundo a ginecologista, são:

  • Cólica menstrual progressiva e incapacitante;
  • Dor durante a relação sexual;
  • Dor pélvica crônica que aparece mesmo fora do período menstrual;
  • Dor para evacuar e para urinar durante a menstruação; 
  • Dangramento uterino anormal;
  • Dificuldade para engravidar.

Por reunir sintomas que também aparecem em outras condições, a endometriose exige atenção redobrada no diagnóstico diferencial. Juliana Sperandio cita que as principais condições que podem ser confundidas com a endometriose são: cólica menstrual sem doença estrutural associada, a síndrome do intestino irritável, doenças inflamatórias intestinais, cistite intersticial, adenomiose, doença inflamatória pélvica crônica e a síndrome da congestão pélvica. 

Existem fatores que aumentam a chance de desenvolver a doença?

Existem alguns fatores que podem sim influenciar nas chances de desenvolver a condição. Como, por exemplo, ter parentes de primeiro grau com endometriose, menstruar muito cedo, nunca ter engravidado, anomalias congênitas do trato genital, índice de massa corporal baixo e passar por exposição prolongada ao estrogênio sem interrupções, como longos períodos sem gestação ou amamentação.

Como é feito o diagnóstico?

O primeiro passo, conta a ginecologista, é uma avaliação dos sintomas e um exame físico minucioso, que incluem toque vaginal e retal, capazes de revelar nódulos dolorosos no fundo de saco posterior (espaço anatômico localizado na pelve feminina).

Na sequência, a ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal é considerada um exame de primeira linha. A ressonância magnética da pelve pode auxiliar em alguns casos, principalmente em casos que envolvem nervos profundos, como o diafragma, ou em locais onde o ultrassom especializado não está disponível.

É possível ter endometriose sem sentir dor?

Sim, e esse é um dos pontos que mais surpreendem as pacientes. “Muitas vezes a doença é um achado que ocorre por acaso durante a investigação de infertilidade ou uma cirurgia por outro motivo”, explica a ginecologista. 

A endometriose tem cura?

Não há cura definitiva para a endometriose. Segundo Juliana Sperandio, o tratamento é voltado ao controle dos sintomas e à preservação da fertilidade, quando esse é um desejo da paciente. As opções variam conforme cada caso e podem incluir anti-inflamatórios analgésicos e terapia hormonal para reduzir o estrogênio circulante, como o uso de anticoncepcionais. 

Quando indicada, a cirurgia deve ser minimamente invasiva, por laparoscopia ou robótica, com remoção completa dos focos da doença (procedimento chamado de excisão). Ela costuma ser recomendada em casos de resistência ao tratamento clínico, infertilidade associada à doença avançada, especialmente após falhas em tentativas de fertilização in vitro, acometimento do intestino delgado, do apêndice ou do ureter, e endometriomas ovarianos acima de quatro a cinco centímetros, a depender da referência utilizada.

A médica reforça ainda a importância do acompanhamento multidisciplinar, que pode envolver fisioterapia pélvica, acompanhamento nutricional e suporte psicológico.

A doença pode voltar depois da cirurgia?

Sim. As taxas de recorrência giram em torno de 4% a 10% para a doença de forma geral, e chegam a aproximadamente 23% nos casos de endometrioma ovariano. “Quando há indicação, a cirurgia deve ser realizada por equipes capacitadas e treinadas, e sempre por via minimamente invasiva, o que proporciona qualidade na remoção dos focos, acelera a recuperação cirúrgica e reduz a chance de retorno da doença”, afirma Juliana Sperandio.

Em alguns casos, principalmente entre pacientes com endometriomas ovarianos ou doença avançada, o bloqueio hormonal pode ser oferecido após a cirurgia justamente para reduzir a chance de a doença voltar.

Existem métodos contraceptivos que devem ser evitados?

Não há uma contraindicação absoluta, mas a ginecologista chama atenção para o DIU de cobre, que não tem efeito terapêutico sobre a endometriose e pode até piorar a cólica e o sangramento, não sendo, portanto, uma escolha adequada para quem tem a doença. Ela lembra também que métodos de barreira usados isoladamente não ajudam no controle dos sintomas. 

O que acontece com a endometriose na menopausa?

Com a queda natural do estrogênio, a maior parte dos casos tende a se estabilizar. Ainda assim, raramente a doença pode persistir, principalmente em mulheres que fazem reposição hormonal com estrogênio isolado, sem oposição de progesterona, ou que têm focos capazes de produzir estrogênio localmente. Por isso, mesmo na menopausa, o acompanhamento especializado com consultas e exames de imagem continua sendo importante. 

O que ajuda na qualidade de vida de quem tem o diagnóstico?

É importante manter um acompanhamento multidisciplinar, liderado por uma ginecologista preferencialmente especializada na doença, que pode contar com fisioterapia pélvica, nutricionista, psicólogo e, quando necessário, outros profissionais para acompanhar de perto as demandas individuais de cada paciente.

A atividade física regular também auxilia no controle da dor crônica e da inflamação, assim como terapias de manejo da dor, técnicas de relaxamento e neuromodulação, quando indicada. Ajustes alimentares individualizados podem trazer melhora para algumas pacientes e grupos de apoio e psicoeducação sobre a doença completam esse cuidado.

Se você se identificou com algum desses sinais descritos ao longo deste texto, vale a pena procurar uma ginecologista para uma avaliação. Diagnosticar a endometriose é o primeiro passo para entender melhor o próprio corpo e encontrar o tratamento mais adequado para a sua rotina. 

Esta é a primeira de uma série de matérias em que vamos conversar com especialistas sobre a endometriose. Nas próximas semanas, traremos aqui no site o olhar de uma nutricionista e de uma psicóloga sobre como cada uma dessas áreas pode ajudar no cuidado de quem convive com o diagnóstico.

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