Psicanalista e professor da USP, Christian Dunker analisa nossa relação com o dinheiro hoje
Falar sobre dinheiro ainda é um tabu para muitas pessoas. Em uma sociedade que valoriza demais as aparências (e as posses), dificuldades financeiras costumam vir acompanhadas de culpa, vergonha e comparação constante. Nesta entrevista à Sorria, o psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da USP Christian Dunker reflete sobre a relação entre finanças e saúde mental, explica por que o endividamento afeta tanto nosso bem-estar e aponta caminhos para construir uma relação mais saudável com o dinheiro.
Dunker: Preocupações com dinheiro ou a perda do emprego afetam a saúde mental porque o trabalho, além de ser uma fonte essencial de sustento, é fundamental para o reconhecimento social. A perda dessa segurança e a preocupação com a parte material drenam energias psíquicas de áreas cruciais para nossa recomposição: o lazer, as relações de respeito e autoridade e a abertura para fazer planos e sonhar acabam comprometidos.
Dunker: Parte da vergonha de falar sobre dinheiro vem da profunda desigualdade em nossa sociedade. Muitas pessoas associam dívidas a um descontrole moral, e falar sobre endividamento seria a admissão de uma falha ou incapacidade.
Uma das principais dificuldades para quem enfrenta problemas financeiros é lidar com os fatos: muitos evitam olhar o extrato bancário, negociar dívidas ou aceitar ajuda. A solução passa pela escuta de si, para entender como chegou a essa situação. A psicanálise pode ajudar.
Dunker: A comparação leva ao isolamento. A ideia de que alguém vale tanto quanto acumula é típica da estrutura neoliberal de produção e consumo, em que cada um olha para si como uma empresa que precisa dar lucro – e, se não dá, não é porque seu universo financeiro está indo mal, e sim você. Nosso valor ultrapassa nosso salário.
É fundamental sair de si mesmo, buscar outros pontos de vista e aceitar ajuda. Nos privamos desse apoio por nos colocarmos em um enfrentamento moral que muitas vezes está ligado à ideia de que quem tem mais é melhor. É preciso mudar a forma como nós, como sociedade, medimos nosso valor.
Conteúdo originalmente publicado no livro “Como Vencer a Ansiedade Financeira”, da Coleção Sorria