Saúde

O que é lipedema? Entenda a doença que afeta até 12,3% das brasileiras

Especialistas explicam por que essa condição resiste a métodos tradicionais de emagrecimento e como diferenciá-la de obesidade e celulite.

Publicado em 14 de agosto de 2026

Por Rafaella Fonseca

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Foto mostra troco e coxas de diferentes mulheres, enfileiradas
Será que o problema é lipedema? Veja o que dizem especialistas

Dor e inchaço nas pernas, gordura desproporcional nos membros inferiores e hematomas que aparecem com facilidade: esses são alguns dos sinais mais associados ao lipedema, uma condição que, segundo o Consenso Brasileiro de Lipedema, chega a afetar 12,3% das brasileiras. Mas que, ainda assim, permanece amplamente subdiagnosticada.

Para entender melhor o que é o lipedema, quem ele afeta, como diferenciá-lo de outras condições e quais são os tratamentos possíveis, conversamos com duas especialistas: Roana Lacerda, angiologista especialista em lipedema e varizes, e Carina Brandão, cirurgiã vascular e angiologista.

O que é o lipedema, afinal?

É uma doença crônica do tecido adiposo. “Não é sobrepeso e não é ‘gordura localizada’. O que acontece é um acúmulo desproporcional de gordura, principalmente em quadris, coxas, pernas e, em alguns casos, também nos braços, mas que poupa as mãos e os pés. Isso diferencia bastante do que a gente vê na obesidade comum”, explica Carina Brandão.

Para além do volume, especialistas destacam que a condição costuma vir acompanhada de dor, sensibilidade ao toque e tendência a hematomas nas áreas afetadas, características que ajudam a distinguir o lipedema de um simples acúmulo de gordura.

Como se chega ao diagnóstico?

“O diagnóstico continua sendo predominantemente clínico. Exames como ultrassom, que realizo na consulta, podem auxiliar no diagnóstico diferencial e na avaliação vascular, mas atualmente não existe um exame laboratorial ou de imagem isolado que confirme o lipedema”, afirma Roana.

A dificuldade do diagnóstico se explica pela própria natureza dos sintomas: a distribuição atípica de gordura característica do lipedema costuma ser confundida com obesidade convencional ou com celulite, o que atrasa o diagnóstico correto. 

Além disso, um detalhe que gera muita frustração em quem convive com a condição: o lipedema pode ser resistente a métodos tradicionais de perda de peso, como dietas e exercícios, o que faz com que muitas mulheres passem anos ouvindo “que só precisam se esforçar mais”.

Quem está mais predisposto a desenvolver a condição?

O lipedema afeta quase exclusivamente mulheres, e o histórico familiar é um dos principais sinais de alerta: é comum que mulheres de várias gerações da mesma família apresentem o quadro.

Por isso, ambas as doutoras reforçam a importância de investigar com cuidado casos de pernas desproporcionalmente volumosas ou dolorosas que podem se repetir entre avó, mãe e filha.

Lipedema, obesidade ou celulite: como diferenciar?

Esta é provavelmente a dúvida mais comum sobre o tema e também a mais carregada de estigma, já que muitas mulheres com lipedema ouvem, ano após ano, que “é só emagrecer”. Vale a pena destrinchar com calma os sinais que cada especialista aponta como diferenciais.

Segundo Carina Brandão, os critérios clínicos que orientam o diagnóstico são acúmulo simétrico dos dois lados do corpo (poupando mãos e pés), dor à pressão (que não é característica nem de celulite nem de gordura comum), hematomas que surgem com facilidade e a falta de resposta proporcional do tecido à dieta e à perda de peso.

Um ponto igualmente importante é que obesidade e lipedema podem coexistir. “Uma paciente com sobrepeso ou obesidade também pode ter lipedema. Isso é particularmente importante porque utilizar apenas o IMC (Índice de Massa Corporal) pode levar ao subdiagnóstico”, completa Roana Lacerda.

Já a celulite costuma se manifestar como uma alteração no relevo da pele (o clássico aspecto de “casca de laranja”), mas sem necessariamente vir acompanhada da dor, da sensibilidade, da desproporção corporal simétrica e dos hematomas que caracterizam o lipedema.

Qual é o tratamento indicado para o lipoedema?

Não existe cura para o lipedema, mas sim controle. Para ser eficaz, o tratamento precisa ser multifatorial e pensado individualmente para cada corpo. “O objetivo não é simplesmente ‘emagrecer as pernas’, mas controlar a dor e os sintomas, preservar mobilidade e função, evitar ganho excessivo de peso, melhorar a qualidade de vida e tratar condições associadas”, explica Roana.

Entre as principais medidas estão atividade física regular, acompanhamento nutricional voltado para reduzir o processo inflamatório, compressão elástica quando indicada e fisioterapia vascular com drenagem linfática, com foco no controle da dor.

“Quando há indicação, a lipoaspiração com técnica específica para lipedema pode ser considerada, respeitando as fibras linfáticas da região. Um ponto prioritário é investigar e tratar uma eventual insuficiência venosa associada, porque isso impacta diretamente a evolução do quadro. Cada caso pede uma combinação diferente dessas ferramentas”, salienta Carina.

Que cuidados devem ser mantidos ao longo da vida?

As duas especialistas reforçam um recado em comum: o cuidado com o lipedema não termina quando os sintomas melhoram, é um processo contínuo. Manter o peso estável é essencial para preservar a massa muscular e a mobilidade, o que torna a atividade física regular e uma alimentação adequada peças-chave dessa rotina.

“O lipedema não deve ser tratado apenas quando a perna incomoda esteticamente. Quanto mais cedo reconhecermos a doença e incorporarmos atividade física, controle de peso, cuidado vascular e manejo dos sintomas à rotina da mulher, maior a chance de preservar a mobilidade, qualidade de vida e evitar a piora do quadro ao longo dos anos”, ressalta Roana.

Se você se identificou com algum desses sinais, vale a pena procurar um angiologista ou cirurgião vascular para uma avaliação. Reconhecer o lipedema é o primeiro passo para parar de se cobrar por algo que nunca foi falta de esforço e – começar a endereçar problema certo.

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