Psicóloga explica como a cultura da produtividade pode adoecer a mente e por que aprender a descansar é um passo essencial para o autocuidado
Se você sente que nunca consegue “desligar” completamente, mesmo nos momentos de folga, não é só impressão sua. Vivemos numa cultura que mede o valor de uma pessoa pelo que ela produz, e não pelo simples fato de existir. O resultado é que descansar, muitas vezes, vem acompanhado de culpa — como se fosse um desvio de rota, e não uma necessidade.
Aprender a desacelerar é, cada vez mais, uma questão de saúde. Para entender essa relação e, principalmente, como sair dela, a Sorria conversou com a psicóloga Nataly Sampaio, especialista em terapia cognitivo-comportamental (TCC) e terapia do esquema.
Neste artigo, você vai entender por que é tão difícil parar, quais sinais o corpo dá antes da exaustão e cinco formas simples de desacelerar sem precisar de um retiro no interior.
Segundo Nataly, esse esgotamento não é coincidência nem falta de organização pessoal. Ele é reflexo de uma estrutura social que empurra as pessoas para um ritmo incompatível com o corpo humano.
“A gente vive num sistema que mede o valor do ser humano como um produto, por produção e não por existência. Tem toda essa estrutura, essa cultura, que leva a gente para esse ritmo de máquina. E aí desemboca num processo de adoecimento”, explica a psicóloga.
Não à toa, o burnout já está descrito há anos tanto na Classificação Internacional de Doenças (CID) quanto no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM). Para a especialista, o aumento de casos não se deve apenas a uma maior capacidade de diagnóstico, mas também porque “a lógica capitalista tem moldado as nossas experiências”.
Reconhecer o próprio limite exige estar atenta ao corpo — algo que a rotina corrida costuma dificultar. É muito fácil passar por cima de sinais que, na prática, são o corpo pedindo para desacelerar.
Nas palavras de Nataly, é comum ignorar “um cansaço que o sono não resolve, uma irritabilidade, que são sinais de que o corpo está gritando: ‘tem alguma coisa acontecendo aqui'”. Fique atenta a alguns deles:
Ignorar esses alertas por tempo demais é o que costuma abrir caminho para o esgotamento.
Muitas pessoas se sentem culpadas por simplesmente precisar descansar. Nataly explica que essa sensação costuma pesar ainda mais sobre pessoas negras, resultado de padrões e expectativas de desempenho impostos pela sociedade.
“Padrões inflexíveis, em que você precisa sempre fazer mais e nunca está satisfeita com isso, o autossacrifício de ‘vou deixar de fazer por mim para me entregar completamente no trabalho’. Tudo isso é bastante reforçado por esse sistema”, afirma.
O problema é que essa rotina leva a ignorar necessidades reais até que o corpo “quebra” e não sustenta mais o mesmo ritmo. Do ponto de vista neurológico, rotinas de alta demanda mantêm hormônios como cortisol e adrenalina cronicamente elevados.
“Estamos falando sobre uma amígdala mais hiperativa, um córtex pré-frontal trabalhando pior, porque precisa sobreviver com uma alta ativação da amígdala. Então o planejamento vai por água abaixo, a regulação vai por água abaixo”, diz a psicóloga. É esse estado que favorece impulsividade e esquecimento no dia a dia. Ou seja: sem desacelerar, até a nossa capacidade de organizar a vida entra em colapso.
A culpa vem justamente da falta de reconhecimento social sobre o quanto o descanso importa para a manutenção do bem-estar. Por isso, a mudança começa por dentro: validar que descansar é o atendimento de uma necessidade básica, e não um privilégio.
“Uma coisa que a era da superprodutividade tirou da gente foi o fato de poder ficar com a mente mais ociosa. E isso é absurdamente saudável, porque ajuda na nossa memória e na nossa criatividade”, afirma Nataly. Para ela, o descanso não é vazio: é produtivo e ajuda a construir versões melhores de nós mesmas.
E para quem já está próximo do esgotamento, o primeiro passo é pedir ajuda a alguém de confiança. “Falar: ‘olha, não estou bem, preciso de ajuda’. Muitas vezes a gente tenta sair dos lugares difíceis sozinha e dificilmente consegue fazer isso efetivamente”, diz a psicóloga, que também recomenda a psicoterapia como caminho para essa reorganização.
A boa notícia é que desacelerar não exige um retiro no interior nem semanas de férias. Pequenas mudanças no dia a dia já fazem diferença:
Desacelerar é reduzir o ritmo acelerado do dia a dia de forma consciente, abrindo espaço para pausas e descanso. Não exige férias longas: pequenas mudanças, como pausas conscientes e momentos longe das telas, já ajudam a aliviar a sobrecarga mental.
Porque vivemos numa cultura que mede o valor das pessoas pela produção, e não pela existência. Essa lógica faz o descanso parecer um desvio, quando na verdade ele é o atendimento de uma necessidade básica para a saúde mental.
Cansaço que o sono não resolve, irritabilidade, perda de prazer nas atividades, dificuldade de concentração e sintomas físicos como dor de cabeça e desconfortos intestinais são alguns dos principais alertas.
Ao contrário. Deixar a mente mais ociosa favorece a memória e a criatividade. O descanso não é tempo perdido: ele ajuda a recuperar energia e a tomar decisões melhores.
O primeiro passo é pedir ajuda a alguém de confiança e considerar a psicoterapia. Tentar sair sozinha de um quadro de exaustão raramente funciona.
Desacelerar não é preguiça nem fraqueza — é autocuidado. Validar o descanso como necessidade, reconhecer os sinais do corpo e criar pequenas pausas ao longo do dia faz toda a diferença entre uma vida sustentável e o caminho do esgotamento.
Que tal começar hoje, escolhendo uma das cinco dicas para colocar em prática?