Psiquiatra explica como o excesso de notícias negativas afeta o organismo
Basta abrir o celular pela manhã para receber uma enxurrada de manchetes: crises políticas, desastres climáticos, violência, economia instável. Em poucos minutos, o cérebro se enche de informações sobre tragédias e preocupações que muitas vezes nem dizem respeito à nossa realidade mais próxima.
Esse hábito, tão comum que já nem percebemos mais, tem nome: infodemia — o consumo excessivo de notícias. E entender a relação entre notícias e saúde mental é o primeiro passo para transformar a forma como você se informa todos os dias.
Neste artigo, você vai descobrir o que acontece no corpo diante do excesso de informação, por que o desligamento total não é a resposta e três estratégias práticas para continuar bem informada sem que isso custe seu bem-estar.
A infodemia é o consumo compulsivo, ininterrupto e sem filtro de conteúdos — em especial os negativos. É o famoso doomscrolling: aquele deslizar infinito de manchetes ruins que começa “só para dar uma olhada” e se estende por muito mais tempo do que planejamos.
O problema é que cada notícia alarmante é interpretada pelo nosso corpo, ainda que inconscientemente, como uma ameaça. Quando isso acontece várias vezes ao dia, todos os dias, o organismo não tem tempo de se recuperar entre um estímulo e outro.
É aí que o impacto das notícias na saúde mental deixa de ser abstrato e passa a ser fisiológico. O resultado é sentido por muita gente: uma pesquisa da Associação Americana de Psicologia (APA) mostrou que mais de 50% das pessoas relatam ansiedade ao consumir conteúdos negativos.
Para o psiquiatra Bruno Cammarota, o contato constante com relatos trágicos coloca o corpo em estado de alerta. Esse estado dispara a produção de hormônios relacionados ao estresse, como o cortisol e a adrenalina — os mesmos que nos preparam para reagir a um perigo real.
O detalhe é que o cérebro não distingue muito bem entre uma ameaça física à sua frente e uma manchete assustadora na tela. Para ele, o sinal de perigo é o mesmo.
Quando esse gatilho é acionado dezenas de vezes ao dia, o corpo vive em tensão crônica. Entre os efeitos mais comuns dessa sobrecarga estão:
Reconhecer esses sinais é essencial para cuidar da sua saúde mental antes que o excesso de informação vire exaustão.
Isso não significa que a solução seja se desconectar do mundo. Estar informada faz parte da cidadania e ajuda a tomar decisões mais conscientes.
O que precisa de atenção é a forma como esse consumo tem acontecido: muitas vezes de maneira compulsiva, ininterrupta e sem filtro. Cuidar da sua saúde mental não é sinônimo de ignorar o que acontece no mundo — é sobre criar limites que protejam seu bem-estar.
A boa notícia é que pequenos ajustes na rotina já fazem uma diferença enorme. Veja a seguir.
Em vez de acompanhar os fatos o dia todo, separe momentos certos da rotina para se atualizar. Assim você se mantém informada sem ficar refém das notificações.
Uma boa prática é não abrir o noticiário assim que acorda, para começar o dia com mais leveza, e também evitar esse contato antes de dormir, já que isso pode prejudicar a qualidade do sono.
Nutrir o otimismo é algo que precisa ser buscado com intenção — e isso ajuda a mente a descansar. Ler sobre descobertas científicas animadoras, histórias inspiradoras ou dicas de viagem dá mais equilíbrio à forma como enxergamos o mundo.
Saber de avanços reais também renova a confiança na humanidade, como:
Esse tipo de leitura funciona como um contrapeso às manchetes negativas, protegendo a relação entre notícias e saúde mental.
Quando alguma questão social divulgada na mídia mexe com você — como a fome no mundo —, uma forma de amenizar a sensação de impotência é apoiar uma ONG que atue nessa frente.
Fazer o bem e se envolver com iniciativas comunitárias contribui para diminuir a ansiedade e transforma a relação com o noticiário em algo mais ativo e positivo. Em vez de absorver o problema, você passa a fazer parte da solução.
Infodemia é o consumo excessivo e compulsivo de notícias, especialmente as negativas. O termo descreve o hábito de checar informações de forma ininterrupta e sem filtro, o que pode sobrecarregar a mente e afetar a saúde mental.
O excesso, sim. Cada notícia alarmante é interpretada pelo corpo como uma ameaça e dispara hormônios do estresse, como cortisol e adrenalina. Quando isso se repete várias vezes ao dia, o organismo vive em estado de alerta constante, o que favorece ansiedade e insônia.
Não. Estar informada faz parte da cidadania. O que muda é a forma de consumir: com horários definidos, pausas e limites, em vez de um fluxo interminável de manchetes.
Evite logo ao acordar, para começar o dia com mais leveza, e também antes de dormir, já que o conteúdo pode prejudicar a qualidade do sono. Momentos específicos ao longo do dia funcionam melhor.
Canalize esse sentimento em ação: apoiar uma ONG, participar de iniciativas comunitárias ou consumir conteúdos positivos ajuda a reduzir a sensação de impotência e a ansiedade.
É possível, sim, se manter informada, engajada e atenta à realidade sem que isso custe noites de sono, picos de ansiedade ou um estado permanente de alerta. O segredo está em transformar o consumo de notícias em um hábito consciente, com limites e pausas, em vez de um fluxo interminável que consome mais do que oferece.
Pequenos ajustes na rotina fazem toda a diferença entre estar bem informada e estar exausta pelo excesso de informação. Cuidar da relação entre notícias e saúde mental é um gesto diário de autocuidado.
Conteúdo publicado originalmente no livro “Como Domar a Ansiedade”. O lucro de todos os livros da Coleção Sorria gera doações para ONGs que atuam pela causa da saúde em todo o Brasil.