Bem-estar e Equilíbrio

‘Não percebemos que a felicidade acontece em episódios banais’, afirma Vera Iaconelli

A psicanalista e escritora explica por que vivemos no piloto automático e como reconhecer a felicidade em meio à correria do cotidiano

Publicado em 17 de agosto de 2026

Por Redação Sorria

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Autora de livros como Análise e Felicidade Ordinária (Editora Zahar), a psicanalista Vera Iaconelli é mestre e doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) e se dedica a traduzir as angústias do cotidiano a partir do referencial psicanalítico. Colunista da Folha de S.Paulo, ela também dirige o Instituto Gerar de Psicanálise, fundado em 1999, que reúne frentes de tratamento e desenvolvimento de pesquisas voltadas às questões do mal-estar contemporâneo.

Vera, que é parceira técnica do livro Guia da Felicidade Para Tempo Difíceis, da Coleção Sorria, explica por que estamos tão ansiosos e como é possível caminhar em direção a uma vida mais feliz. 

Estamos mais ansiosos ou o mundo está mais ameaçador? 

Vera: Somos uma geração marcada por uma ansiedade gigantesca, atravessada pelas questões da internet, do capitalismo e da ideia de performance. Esses fatores vão incrementar a ansiedade. Mas só percebemos a dimensão dela quando nos acalmamos, e não temos tido momentos de calma. Isso vira uma bola de neve. Você não quer parar para refletir sobre o que está por trás dos seus medos, porque não sabe muito bem como enfrentá-los. 

Como reconhecer momentos de felicidade no cotidiano?

Vera: Em contraste com a infelicidade. Porque sofremos, podemos falar: “eu estou feliz”. E porque ficamos felizes, podemos falar: “agora eu não estou”. E, dentro disso, temos esses momentos de bem-estar e de satisfação. Temos a ideia de felicidade como um grande platô, e não percebemos que ela acontece em episódios absolutamente banais. 

A psicanálise ou outras terapias nos ajudam a ser mais felizes? 

Vera: Vivemos no piloto automático, sem analisar os próprios atos e desejos. As terapias ajudam a confrontar nossas idealizações, que geralmente nos fazem infelizes, com a realidade possível.  

Por que a solidão tende a ser vista como algo sempre ruim?

Vera:  Todos nós vivemos uma solidão existencial, que não pode ser superada. As formas de lidar com a solidão estão deterioradas pelo estilo de vida e pelo medo de sofrer. Mas são as trocas humanas que fazem com que “a minha solidão se sinta acompanhada”, como diz a música de Caetano. Não conseguimos aproveitar os nossos encontros, e o resultado é uma solidão mais parecida com um desamparo.  

Como criar filhos sem transmitir ansiedade?

Vera: Hoje, os pais estão guiados por uma lógica de performance, de garantia, que as gerações anteriores não tinham. A educação é uma transmissão de desejos inconscientes, de aspirações. Mas também de ansiedades e medos. Então é importante começar a pensar sobre a própria existência e sair desses imperativos da parentalidade que a internet vende.

Os estudos mostram que as redes sociais são prejudiciais, principalmente para os jovens. O que estaria por trás disso? 

Vera: Nas redes, os jovens têm acesso a um universo de experiências que pais e sociedade têm a obrigação de evitar: pornografia, violências, discursos de ódio… A criança acredita naquilo que ela está vendo, porque não tem uma experiência robusta, e a rede ocupa o papel de auxiliar a criança a se constituir psiquicamente, que deveria ser dos adultos. O efeito é mais nocivo nas meninas, porque a violência de gênero recai mais sobre elas.  

Em meio a tantas incertezas, como ter uma vida com sentido? 

Vera: A vida não tem um sentido genérico, mas individual. Cada um tem que se perguntar qual é o seu e ver se os próprios atos têm consonância com ele. Muitas pessoas estão vivendo supostos sentidos que, na verdade, são genéricos. Casar, ter filhos, comprar um apartamento… Pode ser um sentido para muita gente, mas será que pra todos? Não é fácil encontrar isso, porque a gente tem de ouvir o próprio desejo inconsciente.

Esta reportagem foi publicada originalmente no livro “Guia da Felicidade Para Tempos Difíceis”, da Coleção Sorria. O lucro de todos os livros da Coleção Sorria gera doações para ONGs que atuam pela causa da saúde em todo o Brasil. 

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