Dá pra controlar as próprias emoções? A psicóloga Cecília Dassi explica por que regular é mais eficaz — e como fazer isso no dia a dia.
O que podemos fazer quando uma emoção indesejada vem com tudo? Muita gente ainda associa a ideia de “controlar as emoções” a algo simples, como se bastasse apertar um botão e desligar o que está sentindo. Mas a realidade é mais complexa. Para entender melhor esse processo, conversamos com a psicóloga Cecília Dassi, que ajuda pessoas a lidar com suas emoções de um jeito mais saudável e consciente.
Em entrevista à Sorria, Cecília trouxe reflexões que ajudam a repensar o que a gente imagina sobre controle emocional, desde os impulsos que acompanham sentimentos como a raiva até as pequenas escolhas do dia a dia que podem tornar a gente mais preparado, para lidar com momentos difíceis. Ela também compartilhou estratégias práticas para atravessar situações desconfortáveis sem se arrepender depois.
Cecília: Eu não gosto quando a gente usa a palavra controle quando estamos falando sobre emoções porque a gente tende a pensar em algo tipo um controle de videogame. Não é tão simples quando a gente pensa no processo com as emoções, não dá para colocar ela aqui ou ali. Por outro lado, às vezes quando a gente fala sobre não dar pra controlar as emoções, pode parecer que não tem nada que a gente possa fazer. Nós precisamos diferenciar o que é da ordem da experiência interna automática, que não tem nada realmente que possamos fazer para impedir, e o que é da ordem do que a gente escolhe fazer com a experiência que estamos sentindo. De modo geral, as emoções vêm junto com o impulso de ação. Por exemplo, a raiva vem com impulso de agressividade, mas isso não quer dizer que eu preciso seguir esse impulso e colocar em prática aquilo que eu estou com vontade. Eu prefiro falar sobre regular as emoções do que controlá-las, porque mesmo que você não consiga desligar o que está sentindo, você pode manejar sua emoção de tal forma que não coloque em prática os impulsos que ela te trouxe.
Cecília: Não temos como evitar ter sentimentos negativos na hora que eles surgem. Porém, se eu estou muito mais desregulada, por exemplo, com muito sono, sem fazer atividade física nenhuma, passei um tempo enorme do meu dia vendo vídeos rápidos na internet consumindo conteúdos que alimentam ideias negativas e sem ter experiências positivas, a probabilidade de eu ter uma resposta de negativa diante de uma situação é muito maior. Sempre dou o exemplo de quando temos uma criança pequena que precisa estar em uma festa que é de noite e a família decide colocar a criança para dormir de tarde para que ela aguente. Isso porque ela estará um pouco mais regulada. Do contrário, em um ambiente barulhento, tendo que dormir muito tarde em comparação com a rotina dela, fica muito claro que a criança pode se desregular.
Cecília: Depois que passa a situação de estresse, podemos enriquecer nossas habilidades de regulação observando o que aconteceu. Por exemplo, tive um dia super estressante no trabalho, chego em casa e minha parceira ou meu parceiro está todo animado contando sobre o dia dele e chega uma hora que eu não aguento mais a interação e explodo. Por pior que tenha sido seu dia, não é aceitável que você seja grosseiro com seu parceiro porque não foi culpa dele. Mas, se a partir disso você olhar e pensar “mas também essa pessoa que me levou a isso porque ela não se interessou em saber se eu estava bem ou não, apenas saiu falando”, as chances de eu agir igual no futuro, pensando desta forma, são grandes. O que quer dizer que quando aquilo acontecer novamente eu vou sentir o impulso de ser grosseiro novamente porque entendo que aquela pessoa deveria ter mudado o comportamento dela.
Cecília: Se eu olho para uma circunstância com vontade de aprender, eu entendo que meu dia foi muito estressante, eu estava vulnerável, na hora que eu cheguei em casa, a pessoa não tinha como adivinhar que meu dia foi ruim. Às vezes ela queria me contar algo super feliz ou algo difícil do dia dela, mas ela não sabia que eu não estava bem para receber aquele momento. Então, o que eu posso fazer é comunicar imediatamente para a outra pessoa se eu não estou legal, estou estressada, preciso respirar. E daí eu procuro uma forma de me regular: preciso tomar um banho? Preciso comer? Preciso fazer uma atividade física? A responsabilidade de nos regular é nossa, mas podemos ter a ajuda de pessoas que gostam da gente. Chamamos isso de coregulação.